: um cemitério é sempre um cemitério

cemitério

 

 

: um cemitério é sempre um cemitério

 

 

Silêncio.

 

As correntes enferrujadas.

O assento de madeira velho e podre.

A calça jeans arrasta nas folhas úmidas terra lama.

Nas mãos uma garrafa de vodka.

 

[Havia um pacto. O verbo era a carne. Se a palavra fosse desfeita – impossível como parece, mas eu posso ver a palavra se desfazer e então posso ver a carne, o corpo… Havia um pacto.]

 

Ele pára.

O balanço é um símbolo.

Parado numa pose quase cinematográfica – o que a torna real são os pés: apoiados no chão, uns dedos levantados, outros tortos.

 

[Os limites me incomodam profundamente. Não posso transpor minha pele. Sou uma espécie de monstro informe, assimilando e me remodelando. Há anos que não me alimento. Fui jogado aqui nesse fim-de-mundo para não ser visto, para não incomodar. A pele social só aceita arranhões.]

 

Medo.

O menino está imóvel.

Medo.

Jogado no fim do mundo, varrido pra debaixo do tapete.

Medo.

Ele, que poucas vezes sentiu medo, experimenta um gosto amargo na boca

(sangue, ele jura que é sangue).

 

Estranho.

Sob muitos aspectos bastaria que puxasse as correntes com força e tudo estaria destruído.

O tempo se encarregaria do resto e ele jamais voltaria àquele lugar.

Mas estava errado.

 

Havia um pacto.

 

[…um dia eu cheguei aqui. Há muito tempo. A minha superfície era um caos referencial. Eu já não entendia. Derrubei algumas barreiras e sentei. Retirei os adesivos da minha pele, as etiquetas, as tatuagens, os rótulos – restaram apenas cicatrizes.]

 

A questão nunca foi o equilíbrio.

O balanço era a suspensão.

 

[…e então já não importa mais quem eu sou, o que me define. Aos poucos abro as mãos, meu corpo é meu e não do olhar dos outros. Preciso ser engolido, digerido, cuspido/ preciso me esvaziar, não posso me preocupar com gênero. É uma guerra, me disseram, o fim. Pulei fora. Andei muito pra chegar aqui: no meio da guerra.]

 

Ele que não seria tocado.

 

Suspenso.

Aceitava-se primitivo: molde-me de qualquer jeito. Homem ou mulher, você nunca vai me definir. Não sou sua televisão.

 

Rastejou em todas as lamas e devorou todos os deuses.

 

Um pouco mais rápido – para o homem que controlava o carrossel – um pouco mais rápido!

Mas o homem morreu. O carrossel parou abruptamente e ele foi arremessado.

 

[…pra cair aqui. Eu me lembro desse lugar ácido. Éramos tudo. E agora, mais uma vez, eles exigem um nome. Tanto espaço estranho…eles rugem pra enfiar um rótulo garganta abaixo e me colocar numa prateleira. Esqueço meu nome.]

 

Um cemitério é sempre um cemitério.

 

[primeiro vou colocar uma saia, borrar os olhos, deixar a barba; primeiro vou beijar todos; arrancar os desejos; fazer engolir; e vão enlouquecer, perder as referências. Vou oferecer veneno e vão aceitar cegos; sou uma releitura da serpente.]

 

Não importa o que está enterrado nele.

 

[dose alta de veneno os delírios me consomem.

isso ainda me excita

eles sempre confundiram meu corpo e perderam o foco:

nunca usaram meu nome,

roubei

homens mulheres santos deuses]

 

O gozo pode ser estéril.

 

[viro para ele, enquanto você estiver suspenso eu estou suspenso. Éramos um rasgado em dois. Sentíamos a dor do corte. Ele afundou, eu suspendi.]

 

Fúria.

 

[não me viram saindo ou fingiram não ver. Foda-se. Não contei antes pra não estragar. Preferem quando estou longe, não sou ameaça ao universo segmentado. Sou fluído.]

 

A garrafa de vodka vazia,

os olhos fechados, dor prazer fúria saudades vozes vozes vozes……………..

 

[mordo o lábio inferior até sangrar]

 

Ele jamais saberá.

A corrente esquerda rompe.

O balanço cai.

Ele pega a espingarda,

sente o metal frio nos lábios,

puxa o gatilho.

 

 

 

* conto publicado no extinto portal Patife, no especial Meninos não Choram.

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~ por autor em 11/02/2009.

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