sobre círculos e infernos

•19/06/2009 • Deixe um comentário

Ele não deveria ter entrado.

Há apenas o teto, pensa nisso enquanto o peso do universo dissipa – a ordem inversa do seu nome é apenas o seu nome.

Eu não quero mais me olhar, eu não quero mais te ver – verter ou seja lá qual for a inversão térmica dessa tua previsão barata. Estamos reduzidos a esse teu último cigarro que você…

…e agora toda essa ausência de espaço. Como se mais uma ânsia de vômito fosse resolver o mundo. Talvez você não tenha percebido o custo disso, o horror nos olhos de todas as pessoas enquanto eu descia, eu descia… – e vou estar para sempre descendo aquelas escadas.

Você desfaz a realidade, esses panos brancos sobre o inferno, todos os espelhos agora são infernos, internos – odeio seu jogo de palavras, essa sua forma de olhar me mata aos poucos como um câncer.

Tudo foi uma questão de escolha, jogar as cartas erradas, apostar no perdedor eterno e sair desse jeito, terminar assim, esse reflexo distorcido em mãos que não podem me tocar – não me toque agora.

I am leaving you.

You can go now. You can go now.

Há um abismo nessa distância ínfima, há uma impossibilidade crônica: você não vai se abaixar, ouvir meu coração lento, cada vez mais lento até que eu seja apenas um reflexo num espelho manchado de tempo, manchado por todo o tempo, por todas as outras escolhas…essa cor podre que me consome agora, desce garganta abaixo e você não entende que eu não posso mais respirar.

Ele não deveria ter entrado, tudo estava trancado e pronto, tudo já havia sido dito, todas as inversões possíveis nesse jogo, nessas salas vazias. E você não percebe que estamos reduzidos ao seu último cigarro.

Já chega.

É hora de apagar as luzes, querido.

judas

•18/02/2009 • Deixe um comentário

 

 

:  judas

 

Debaixo de todos os amores ele rasteja, procurando um último desejo que possa pregar nas paredes

internas

marcadas para demolição – todos os quadros imundos de poeira, bocas rasgadas e olhares dormidos, carcomidos, ele não presta atenção no sinal que oscila lento e lento anuncia o fim de todos os dias. Um amarelo doente, ossos frágeis no caminho de uma revolução. Debaixo de todas as bocas abertas ele rasteja, procurando um último dente que possa significar salvação,

para o menino perdido no pátio sem luz de uma escola

sem deus.

 

Mas agora que o ônibus arrancou e os últimos sobreviventes foram levados para os abrigos ricos da cidade alta, deve haver um sonho debaixo de todos esses travesseiros suados e amassados, ele rasteja para encontrar um lugar onde possa dormir sem ter

os malditos pesadelos recorrentes sobre estupro

abuso

e todos os homens desdentados que teve que beijar para

sobreviver.

 

escondi alguns caracóis debaixo dos meus cabelos

príncipe foragido numa cidade em chamas

– arranca teus olhos, querido

num complexo sem o triângulo

 

Debaixo de todos os cinzeiros saturados ele rasteja, deve haver algum homem que não tenha, deve haver algum deus que não, ou pelo menos um resto de cigarro que ainda possa ser fumado nessa teatral escuridão cinza-crepúsculo de todos os deuses,

ele demora num banco

numa praia de anos de corpos de fósseis

todos os navios já estão

ancorados no espaço.

 

oh, sim eu estou tão sozinho engolido por esse casaco

sem adivinhar respostas

espinhos na minha língua

– beija agora esse homem que te trai

 

Ontem, durante o jantar – peixe, pão e vinho, porque é isso que as pessoas comem nesses tempos de seca e chuva – ele inclinou a cabeça para o lado, ajeitou o cabelo e pediu um beijo, desajeitado no decorrer de um corpo mal-formado. O outro, imerso em si, recusou, sabendo que todos os pecados residem nos lábios e na produção do verbo – silêncio, ele pediu, não fale mais nada.

Debaixo de todo esse ouro podre ele rasteja, procurando uma conversa e uma xícara de café, para resgatar um pedaço do homem que foi e descansar um instante de toda a insanidade violenta que avança através dos cabelos

num dia em que o céu me disse

sobre quedas e pára-quedas e relâmpagos

na última árvore do último jardim.

Ontem o jantar foi um inferno, velas e peixe e pão e vinho e confissões trocadas para a pessoa ao lado e todos os outros ouviam com ouvidos ávidos e línguas afiadas, mas eu falo mais que eu mesmo para tentar impedir as vozes que explodem dentro.

 

nessas sombras e águas podem surgir coisas

sem camisa e com os restos de uma calça jeans

– querido, me passa essa coroa que o seu tempo acabou.

 

 

 

 

judas

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: um cemitério é sempre um cemitério

•11/02/2009 • Deixe um comentário

cemitério

 

 

: um cemitério é sempre um cemitério

 

 

Silêncio.

 

As correntes enferrujadas.

O assento de madeira velho e podre.

A calça jeans arrasta nas folhas úmidas terra lama.

Nas mãos uma garrafa de vodka.

 

[Havia um pacto. O verbo era a carne. Se a palavra fosse desfeita – impossível como parece, mas eu posso ver a palavra se desfazer e então posso ver a carne, o corpo… Havia um pacto.]

 

Ele pára.

O balanço é um símbolo.

Parado numa pose quase cinematográfica – o que a torna real são os pés: apoiados no chão, uns dedos levantados, outros tortos.

 

[Os limites me incomodam profundamente. Não posso transpor minha pele. Sou uma espécie de monstro informe, assimilando e me remodelando. Há anos que não me alimento. Fui jogado aqui nesse fim-de-mundo para não ser visto, para não incomodar. A pele social só aceita arranhões.]

 

Medo.

O menino está imóvel.

Medo.

Jogado no fim do mundo, varrido pra debaixo do tapete.

Medo.

Ele, que poucas vezes sentiu medo, experimenta um gosto amargo na boca

(sangue, ele jura que é sangue).

 

Estranho.

Sob muitos aspectos bastaria que puxasse as correntes com força e tudo estaria destruído.

O tempo se encarregaria do resto e ele jamais voltaria àquele lugar.

Mas estava errado.

 

Havia um pacto.

 

[…um dia eu cheguei aqui. Há muito tempo. A minha superfície era um caos referencial. Eu já não entendia. Derrubei algumas barreiras e sentei. Retirei os adesivos da minha pele, as etiquetas, as tatuagens, os rótulos – restaram apenas cicatrizes.]

 

A questão nunca foi o equilíbrio.

O balanço era a suspensão.

 

[…e então já não importa mais quem eu sou, o que me define. Aos poucos abro as mãos, meu corpo é meu e não do olhar dos outros. Preciso ser engolido, digerido, cuspido/ preciso me esvaziar, não posso me preocupar com gênero. É uma guerra, me disseram, o fim. Pulei fora. Andei muito pra chegar aqui: no meio da guerra.]

 

Ele que não seria tocado.

 

Suspenso.

Aceitava-se primitivo: molde-me de qualquer jeito. Homem ou mulher, você nunca vai me definir. Não sou sua televisão.

 

Rastejou em todas as lamas e devorou todos os deuses.

 

Um pouco mais rápido – para o homem que controlava o carrossel – um pouco mais rápido!

Mas o homem morreu. O carrossel parou abruptamente e ele foi arremessado.

 

[…pra cair aqui. Eu me lembro desse lugar ácido. Éramos tudo. E agora, mais uma vez, eles exigem um nome. Tanto espaço estranho…eles rugem pra enfiar um rótulo garganta abaixo e me colocar numa prateleira. Esqueço meu nome.]

 

Um cemitério é sempre um cemitério.

 

[primeiro vou colocar uma saia, borrar os olhos, deixar a barba; primeiro vou beijar todos; arrancar os desejos; fazer engolir; e vão enlouquecer, perder as referências. Vou oferecer veneno e vão aceitar cegos; sou uma releitura da serpente.]

 

Não importa o que está enterrado nele.

 

[dose alta de veneno os delírios me consomem.

isso ainda me excita

eles sempre confundiram meu corpo e perderam o foco:

nunca usaram meu nome,

roubei

homens mulheres santos deuses]

 

O gozo pode ser estéril.

 

[viro para ele, enquanto você estiver suspenso eu estou suspenso. Éramos um rasgado em dois. Sentíamos a dor do corte. Ele afundou, eu suspendi.]

 

Fúria.

 

[não me viram saindo ou fingiram não ver. Foda-se. Não contei antes pra não estragar. Preferem quando estou longe, não sou ameaça ao universo segmentado. Sou fluído.]

 

A garrafa de vodka vazia,

os olhos fechados, dor prazer fúria saudades vozes vozes vozes……………..

 

[mordo o lábio inferior até sangrar]

 

Ele jamais saberá.

A corrente esquerda rompe.

O balanço cai.

Ele pega a espingarda,

sente o metal frio nos lábios,

puxa o gatilho.

 

 

 

* conto publicado no extinto portal Patife, no especial Meninos não Choram.

: reprodução dos últimos dias no éden

•04/02/2009 • Deixe um comentário

 

eden

 

 

Então, o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher.

Gênesis, 2-23

 

 

Reproduzo um tiro após o outro. Reverberações de um tempo manchado de vermelho.

– Estamos em guerra, amor! – ela diz.

Reproduzo um passo após o outro. No quarto, eu paro.

…ele dorme como se fosse um menino, largado na porta de casa, um erro cometido pelos soldados que caçavam o primogênito.

Ela avança dente por dente. Entre o tom amarelado do dia e os vidros imundos de poeira, ela, que já não distingue uma mosca de um deus, termina de fazer as pedras.

– Mortas. Todas mortas. Basta ligar o forno.

Quebro o co(r)po com os dentes. Não há mais dúvidas: a descida é em espiral.

Ele dorme. Ando perigoso pela sala. Você leu sobre os leões? Sabe, então, onde encontrar a morte.

O gás escapa.

Ela tenta lamber um fósforo.

Não.

Ela tenta acender um fósforo na língua.

Um balão branco desaparece eternamente na sala. Uma jogada de dados. Os dois se olham. Se você já fez um homem de barro, lama ou seja lá, sabe do que estou falando: das rachaduras, ranhuras, fragilidades, sulcos.

Nota: poderia estuprá-lo – mas já me disseram, as pessoas da lei, que é impossível estuprar um homem.

Ele a pregou no teto com 4 estacas – mãos e pés – e meteu-lhe três tiros nas costelas, gritando:

– Eram minhas!…foram roubadas enquanto eu dormia!…entraram debaixo da minha pele e arrancaram…!

Inalou gás até os pulmões explodirem.

Eu observei, pedi licença, levantei a barra do vestido e saí.

 

 

*texto publicado no Jornal do Brasil em 07/07/07