judas
: judas
Debaixo de todos os amores ele rasteja, procurando um último desejo que possa pregar nas paredes
internas
marcadas para demolição – todos os quadros imundos de poeira, bocas rasgadas e olhares dormidos, carcomidos, ele não presta atenção no sinal que oscila lento e lento anuncia o fim de todos os dias. Um amarelo doente, ossos frágeis no caminho de uma revolução. Debaixo de todas as bocas abertas ele rasteja, procurando um último dente que possa significar salvação,
para o menino perdido no pátio sem luz de uma escola
sem deus.
Mas agora que o ônibus arrancou e os últimos sobreviventes foram levados para os abrigos ricos da cidade alta, deve haver um sonho debaixo de todos esses travesseiros suados e amassados, ele rasteja para encontrar um lugar onde possa dormir sem ter
os malditos pesadelos recorrentes sobre estupro
abuso
e todos os homens desdentados que teve que beijar para
sobreviver.
escondi alguns caracóis debaixo dos meus cabelos
príncipe foragido numa cidade em chamas
- arranca teus olhos, querido
num complexo sem o triângulo
Debaixo de todos os cinzeiros saturados ele rasteja, deve haver algum homem que não tenha, deve haver algum deus que não, ou pelo menos um resto de cigarro que ainda possa ser fumado nessa teatral escuridão cinza-crepúsculo de todos os deuses,
ele demora num banco
numa praia de anos de corpos de fósseis
todos os navios já estão
ancorados no espaço.
oh, sim eu estou tão sozinho engolido por esse casaco
sem adivinhar respostas
espinhos na minha língua
- beija agora esse homem que te trai
Ontem, durante o jantar – peixe, pão e vinho, porque é isso que as pessoas comem nesses tempos de seca e chuva – ele inclinou a cabeça para o lado, ajeitou o cabelo e pediu um beijo, desajeitado no decorrer de um corpo mal-formado. O outro, imerso em si, recusou, sabendo que todos os pecados residem nos lábios e na produção do verbo – silêncio, ele pediu, não fale mais nada.
Debaixo de todo esse ouro podre ele rasteja, procurando uma conversa e uma xícara de café, para resgatar um pedaço do homem que foi e descansar um instante de toda a insanidade violenta que avança através dos cabelos
num dia em que o céu me disse
sobre quedas e pára-quedas e relâmpagos
na última árvore do último jardim.
Ontem o jantar foi um inferno, velas e peixe e pão e vinho e confissões trocadas para a pessoa ao lado e todos os outros ouviam com ouvidos ávidos e línguas afiadas, mas eu falo mais que eu mesmo para tentar impedir as vozes que explodem dentro.
nessas sombras e águas podem surgir coisas
sem camisa e com os restos de uma calça jeans
- querido, me passa essa coroa que o seu tempo acabou.

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